Improvisação hierárquica em Jazz Dance

Todo mundo que faz aula de Jazz Dance sabe que improvisação é um dos pilares dessa dança e mesmo assim, na hora de executar um improviso, repete muitas coisas, fica paralisado e acaba se frustrando enquanto bailarino por não ter conseguido fazer algo legal. Ou “instagrameável“.

Existem estudos sobre formas e jeitos de se estudar improvisação. Sobretudo dentro da dança contemporânea e suas variantes. Mas por que no Jazz Dance isso ainda é um bicho de sete cabeças? Improviso a partir de alguma estética específica, requer conhecimento das bases de movimento da técnica em questão; mas se o improvisador não tiver também domínio de seu próprio corpo, para além de movimentos codificado, muito dificilmente suas performances de improvisação serão interessantes ou de qualidade.

É preciso também ter em mente, que só o treino fará com que isso aconteça de forma natural. Nesse treinos, repetir movimentos é uma ação bem-vinda. Quando se está estudando algum movimento, um caminho que pode ser de fácil acesso, é deixar o corpo fluir livremente, se atentando à coisas que gosta ou não. Com isso, um filtro vai se criando e nas próximas vezes, tentar reproduzir os movimentos que agradaram, observando para onde ele leva o corpo. Com isso, é possível começar fazer uma análise sobre o próprio padrão de movimento.

Agora, quando se fala em improvisação hierárquica, é sobre a relação entre dança e música. Onde uma improvisação em dança acontece com uma música já composta. Esse é o lugar mais comum dentro da dança e é também como acontecia nos começo do Jazz. Existe também a possibilidade de relações horizontais nesse sentido, bastante comum em jams de contato e improvisação e que eu, Flavia Pereira, particularmente trabalho dentro do Jazz.

Para dar mais direções de possibilidades de estudo de improvisação hierárquica, trago aqui um vídeo onde improviso ao som de “All Blues” de Miles Davis. Fragmentando o quase 12 minutos de improviso, farei uma análise didática sobre estratégias que usei durante o improviso. Todos os pontos de partida que utilizei foram pensados em tempo real. Pequenas tarefas de movimento que fui criando, baseado nos meus conhecimentos musicais e do meu próprio corpo, resultado os treinos para conhecer meus padrões de movimento.

PARTE 1: introdução e reconhecimento da música
Aqui começo com movimentos simples. As músicas de Jazz em geral começam apresentando o tema da canção. Nesse primeiro momento escolho me conectar com cada instrumento e a vontade corporal que me provocam; então cada vez que mudo a tônica do meu corpo, representa a mudança de instrumento que estou usando de base. É nesse momento que escolho a bateria como base para o improviso todo. Como consequência, por já saber de meus padrões de movimento, o footwork será um caminho a ser seguido nessa jam.

PARTE 2: escuta corporal – sensações
Nessa parte, o tema ainda está presente, mas começo a deixar mais que as sensações do meu corpo de manifestem, principalmente com esse primeira entrada do trompete. Aqui começo também um padrão de movimento que surgiu durante a session, que é o itch.

PARTE 3: explorando nuances
Transição do tema para o primeiro improviso, a bateria começa a mudar e tenho a sensação do tema estar um pouco mais urgente. Quando musicalmente muda, mantenho a escolha de focar no pés com a percussão, mas uso da melodia do trompete para criar também no meu corpo um desenho que seja coerente com a música. Nesse momento, começo a me alinhar com a ideia de síncope.

PARTE 4: novos elementos
Mantenho a ideia de usar a bateria e o trompete, mas começo a utilizar o som do piano, que está tocando o tempo como pequenas variações. Além de ser estratégia de descanso, como uma forma de economizar energia, serve também para preparar meu corpo para uma nova transição de proposta, aumento os pontos de partida.

PARTE 5: ênfase
Depois do reconhecimento das partes da música que escolhi usar e de alguns testes, começo a dar potência na movimentação de pés, nos braços com waves, correspondendo ao trompete e utilizando o piano para síncope e slow.

PARTE 6: sax
É o trecho com tarefas mais longo até aqui. Sax é um dos instrumentos mais difíceis de prever, porque raramente se utiliza notas longas e sonoramente, o interessante é o ar frenético que ele provoca. Para dar conta disso, continuo com a base de footwork na bateria, pego o piano que está melódico no tema, embora tenham alguns floreios e utilizo de ombros, com movimentos como o shimmy e outras ondulações e shakes para pegar a cadência do saxofone.

PARTE 7: zona de conforto
Dois lugares surgiram aqui. Um deles foi o cansaço, então utilizo o piano no tema para descansar e criar dinâmicas de fluência diferente e menos frenética do que estava antes, quando tinha o solo de sax. O trompete nessa hora volta e é o tipo de som que tenho mais facilidade em me conectar. Com o improviso anterior, sinto meu corpo mais solto e quase ignoro a bateria, que é minha base nesse improviso, e foco só na melodia do trompete.

PARTE 8: elemento surpresa
Finalizo o trompete mesclando com os movimentos de pés que estava utilizando na bateria e utilizo o tema para descansar. Repare que faço inclusive o mesmo movimento que fiz no começo, quando estava reconhecendo as reverberações do tema no meu corpo. O que eu não esperava é que viesse um solo do piano. Nele trabalhei swings e um pouco de bounces. Além de tentar articular mais os dedos das mãos.

PARTE 9: referências
Nesse final, que o tema volta tal qual com começou, tento explorar um pouco mais os passos codificados do Jazz Dance. Uma vez que já sei como ele virá e como uma forma de alinhar todo o estudo particular com o coletivo.

Lembrando que essa é uma, das várias formas de se criar estratégias de improviso utilizando uma música composta de base. A seguir, o improviso completo:

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