Qual é a cor de um profissional da dança?

Durante a história recente do balé, vemos bailarinas como Misty Copeland sendo solista em uma das companhias mais tradicionais dos EUA, o American Ballet Theatre, Precious Adams que estudou no The Bolshoi Ballet Academy da Rússia e foi uma das vencedoras do Prix de Lausanne e Ingrid Silva, bailarina brasileira solista do Dance Theatre of Harlem. O que elas tem em comum, além da dança? A cor da pele.

Ingrid Silva

A discussão sobre representatividade, apesar de ter começado tardia em parâmetros de abrangência, é assunto indispensável em todos os setores que envolvem grupos sociais. É comum que associem habilidade na dança à pessoas negras, mas muito pouco se vê dessas pessoas se profissionalizando na área e sendo (re)conhecidas por isso. 

Para entender o porquê desse processo ser tão lento, é necessário ver estatísticas das condições sociais que diferem pessoas negras de pessoas brancas no Brasil. Uma pesquisa do  PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) publicada em 2016, mostra que dos 10% dos mais pobres no país, 75% deles são negros. Lembrando que mais da metade da população do país é preta. E isso reflete diretamente nas escolhas de prioridades e nos lugares onde gastar dinheiro.

Arte, mesmo com inúmeros projetos sociais, ainda não é acessível para todas as famílias. Um curso de dança custa em média R$200,00 mensais. Metade da população brasileira vive com menos de um salário mínimo por mês, que é R$880,00. Sendo negras a maioria dessas pessoas, a possibilidade de vermos essa representatividade nas artes, fica ainda menor. E quando há essa escolha de investimento em dança, as referências vem de fora do país.

Mesmo que esses artistas encontrem mais espaço e acolhimento fora do Brasil, ainda é preciso lidar com barreiras de preconceito e falta de acessibilidade. Dificuldades que Josephine Baker (1906-1975) enfrentou na década de 1920, quando fora reconhecida por suas habilidades na dança e mudou-se à trabalho para a França. Josephine teve uma infância de abandono familiar e exploração no trabalho doméstico. Aos 12 anos teve que deixar a escola, mas com 15 começou a dar seus primeiros passos na carreira de dançarina ao conseguir trabalho na Broadway. Sua dança que era sensual, tinha algo que a tornava única: a comédia. O que inicialmente era usado para debochar das pessoas que lhe viam com maus olhos, tornou-se uma de suas principais características como performer e dançarina. Após a mudança de continente e uma carreira num crescer constante, Baker se tornou uma das figuras públicas pela luta por igualdade racial.

Hoje, mesmo com toda a integração que vem sendo feita a fim de acabar com esse tipo de racismo, ainda há quem torça o nariz para bailarinas e bailarinos negros dentro da dança clássica. O balé, de orgiem nobre e completamente embranquecido, ainda não se permite por completo a participação dos diferentes tipos de pessoas, por mais que elas tenham todas as qualidades técnicas que a dança exige. As três bailarinas citadas no início do texto, embora sejam contemporâneas à Josephine Baker, também tiveram que enfrentar preconceitos raciais em suas carreiras.

       Josephine Baker, 1926

Precious Adams ouviu de um professor do Bolshoi para que deixasse a sala por ser negra. Também disseram para ela lavar a pele, para a cor sair. Misty Copeland sofreu duras críticas ao ser anunciada como primeira bailarina do ABT pelo tom de sua pele, já que nos balés de repertório personagens principais sempre foram interpretados por pessoas brancas. Outra característica do balé, são as linhas, o que justificam a cor da meia-calça e das sapatilhas serem as mesmas. Coisa que não é tão simples para bailarinos negros, pois na preparação para ensaios e espetáculos inclui-se o tingimento de sapatilhas para que fiquem do tom suas peles, pois são poucas marcas do mercado de artigos para a dança ainda não fabricam sapatilhas que atendam a todos as cores de pele.

O Dance Theatre of Harlem foi um dos pioneiros ao formar uma companhia de dança composta só por bailarinos negros em 1969, quase uma década depois de Alvin Ailey (1931-1989) ter fundado a sua companhia exclusivamente para bailarinos negros, a Alvin Ailey American Dance Theater. Hoje ambas as companhias recebem bailarinos de todas as origens.

                                                                                                       Alvin Ailey

Mas isso ainda é pouco. O jovem negro ainda tem dificuldades em se ver um artista profissional porque ele não tem referências suficientes de outros que obtiveram sucesso, dado ao histórico de exploração e segregação do povo negro. E muitos do que fazem suas artes, necessitam complementar a renda mensal fazendo trabalhos informais em coisas não relacionadas às dança, pois a estética negra ainda é vista como fora do padrão. Ou então, essas pessoas possuem um emprego que lhes garantem o sustento mensal e transformam suas paixões artísticas em hobby. 

É preciso incentivar a arte e lutar para que ela tenha acesso garantido à toda população. Perseverar e apoiar os que já estão trabalhando com isso, nos permitindo sentir a vida de modos diferentes.

Conheça outros nomes da dança que são importantes para a representação negra na dança:
Katherine Dunham (1909-2006)
Abdias Nascimento (1914-2011)

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1 Comment

  • Juçara

    Excelente reflexão acerca do assunto.
    Certamente, pessoas negras foram colocadas a margem da sociedade, dificultando assim o acesso às artes, educação e outros diversos setores sociais. já passou da hora de termos mais representatividade.
    O futuro parece ser assustador, mas esperançoso.
    Keep writing!

    11 de fevereiro de 2019 at 22:39 Reply
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