West Side Story Brasil e onde está o (theater) jazz?

Nessa semana fui assistir a montagem brasileira de West Side Story, em cartaz no Theatro São Pedro, na Barra Funda, em São Paulo. A peça, que surgiu originalmente no final da década de 1950, nos Estados Unidos, é considerada uma das mais importantes do nicho. Não apenas pelos diversos prêmios recebidos, mas pela forma como na composição das músicas, foram mesclados elementos de Jazz, músicas latinas e ópera. Nas coreografias assinadas por Jerome Robbins, que foi também um dos diretores do filme de 1961, podemos ver de maneira mais concisa a inserção do Jazz dentro do teatro musical.

O enredo é baseado em “Romeu e Julieta”, um amor proibido entre dois jovens pertencentes a gangues rivais, no subúrbio de Nova Iorque. A cada número, vemos sendo retratadas essa paixão impossível, xenofobia, patriotismo e misoginia. Analisando as coreografias, dado ao contexto da época, ainda estava recente a utilização de elementos tão específicos do Jazz Dance dentro dos teatro musical; até então, as danças eram mais “genéricas” e populares, sendo sapateado o mais dominante. Dentro dessa apropriação, foi com Jack Cole que essa técnica se popularizou nesse segmento artístico. Fazendo com que o diretor e coreógrafo fosse chamado de “pai do teatro musical” e sendo influência para outros nomes, sendo um deles, Jerome Robbins.

Com isso, em West Side Story, vemos corpos brancos com treinamento de base na dança clássica executando movimentos do jazz que incluem, principalmente, isolamentos e síncopes. Apesar das inúmeras problemáticas dado ao contexto social da época, sobre protagonismo de uma cultura, a composição coreográfica de West Side Story é impecável. Assim como roteiro e músicas, são para pessoas de alto nível técnico e de domínio muito grande de suas habilidades. É aí que entra a atual versão brasileira do musical.

Apesar de vermos em cena a tentativa de colocar profissionais nos perfis dos personagens, ainda temos mulheres brancas interpretando as personagens latinas. Quanto ao canto e interpretação, na minha visão de alguém que não é da área, está coerente. Coisa que não posso dizer na questão coreográfica. A primeira vez que vi sobre essa montagem, era falando que seriam performadas as coreografias originais, de Robbins. Com a expectativa controlada e o olhar atento, assisti todas as cenas dançadas da ponta da poltrona, a fim de não perder nenhum detalhe. E no intervalo dividi com as pessoas de quem estava acompanhada, minhas primeiras impressões sobre o que tinha visto até então.

Não pode se dizer que o elenco não dança bem. Afinal, estamos falando de uma peça profissional, com artistas profissionais, que, em teoria, estudam com afinco, pelo menos, três áreas do teatro musical: dança, canto e interpretação. Mas ficou, para mim, mais do que nítido, que embora bem dançado, com um ou outro atrasando os movimentos, que aqueles corpos não tem a vivência e experiência corporal para as coreografias de West Side Story.

Theater Jazz não é uma vertente comumente dançada no Brasil e se for citar de cabeça, podemos talvez considerar dois nomes mais conhecidos que passam por esse lugar; que seriam Kátia Barros e Francisco Ribeiro. Refletindo um pouco mais sobre como essas coreografias não chegavam, principalmente em “Cool” e “America”, lembrei-me de um vídeo feito em 2020 com pessoas do teatro musical de Nova Iorque interpretando a coreografia original de “Cool”. Artistas da área que tem como predominância de dança o Theater Jazz.

Foi com isso que concluí que por mais que reconhecesse as coreografias e conseguisse reconhecer também as qualidades do elenco, estava sentindo falta de ver jazz naqueles corpos. Uma carência de ver ali, vivência de rua, de uma dança que veio da rua, e que, por coincidência, na história praticamente todas se passam nesse contexto de rua.

Existe algo no jazz, que poucos conseguem colocar em palavras, mas quando se vê, todo sabe o que é. Um furor que reverbera, e de tudo o que vi enquanto sentada na plateia de West Side Story, essa foi umas das coisas que definitivamente, não vi.

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